A Educação física pode(ria) estar afastando crianças do esporte?

A todo momento recebo links de matérias diversas, e um dos meus alunos enviou um com um título bastante curioso “A educação física pode estar afastando seu filho do esporte”. Assusta, né?

O autor indica que a Educação Física – embora não deixe claro, parece-me ser a escolar (EFE) – precisa ser reformulada. Olha, entrei na área em 1998 e, desde antes disto, já existem diversos materiais que visam à transformação da EFE. Desde livros clássicos, como “Educação de corpo inteiro” e “Metodologia do ensino de Educação Física”, bastante conhecidos na área por quem não tem veia exclusivamente bioologicista e faz concursos para professor, até outros mais amplos, como “Transformação didático-pedagógica do esporte” e “Iniciação esportiva universal”. Além deles, também vale a pena destacar que existem diversas propostas estaduais para o ensino da EFE, como em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. São mais de 10 propostas estaduais já apresentadas, como mostram Tenório et al. (2012). Se os docentes, no cotidiano do chão da sala, fazem uso deste material, bem, é outra discussão. Mas que existem documentos excelentes para formação e atuação profissional não há dúvidas!

No texto, ele ainda diz, claramente, que “para uma criança aprender uma habilidade em nível interessante, são necessárias dez mil repetições de cada um dos movimentos nas mais diversas situações”… e questiona se o esporte poderia/deveria ser aprendido nas aulas de EFE. Por favor, alguém me diga o que é “nível interessante”? Eu sinceramente não tenho a menor ideia do que é isto e, no máximo, consigo compreender que possa haver padrões em estágios mais iniciais, elementares ou maduros, como classificariam Gallahue e Ozmun (2001). Especificamente quanto ao NÚMERO 10.000 (dez mil), os estudos vão no sentido de 10.000 HORAS DE PRÁTICA, teoria desenvolvida – ou pelo menos muito divulgada – pelo Ericsson, há mais de 20 anos! Curiosamente, e bem na área do movimento humano, esta regra tem sido quebrada em alguns contextos, evidenciando-se como falha. Pelo menos dois exemplos: estudo com velocistas dos Estados Unidos da América demonstra que, nem de longe, os melhores necessitam de 10 anos ou 10 mil horas de prática (Lombardo; Deaner, 2014) e o livro “A Genética do Esporte” tem um capítulo muito legal mostrando que, além de provas de velocidade, outras, como de saltos em altura, também parecem acabar com a tal regra dos 10 anos ou 10 mil horas… Se você ainda não está certo disto, sugiro que leia alguns dos textos no blog “The Science of Sport” sobre o assunto aqui e aqui.

Além disto, aponta-se que “(…)o modelo proposto e experimentado pelas crianças é competitivo e excludente, de forma que se prioriza a minoria dos alunos habilidosos em detrimento dos demais”, falando que há maior quantidade de jogos competitivos em detrimento a jogos cooperativos, o que gera experiência negativa entre os estudantes, e que irá afastá-lo da prática de atividade física. Isto é tão inverdade, mas tão inverdade, que diversos PRÊMIOS recebidos por professores de Educação Física Escolar por seus modelos de aulas e de planejamento. Alguns exemplos? O PRÊMIO EDUCADOR NOTA 10, da Fundação Victor Civita pode ajudar:

2007 = Esportes de Tacos e Raquetes

2009 = Movimento, saúde e qualidade de vida

2010 = Lutas nas aulas de educação física

2011 = Atividades Circenses

2013 = Saúde e lazer x competição

2015 = Rope Skipping

Tais evidências são a materialização de que a EFE já transcendeu a lógica esportivista há décadas. Diversos docentes avançaram e otimizaram as potencialidades a partir do movimento corporal. Achar que aulas de Educação Física Escolar AINDA abarcam apenas o esporte é ser raso e superficial demais. A informação está aí para ajudar na formação. Inclusive, há alguns anos, um texto à Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde deixava uma série de opções e indicações de conteúdos para além da educação física esportivizada ou higienista

Equivocadamente, o autor explicita que competição é “ruim”, ao dizer que “Alguns ainda têm aquele velho discurso de que a competição é importante para a vida”, e era mais dizendo que há modelos de esportistas que não devem ser seguidos na “competição da vida real”. Não é a competição que é ruim ou boa – o AGON está presente no cotidiano da humanidade de diferentes formas, e o esporte moderno apresenta diferentes formas do Agon. Inclusive, há evidência apontando que, por exemplo, medalhistas olímpicos vivem de 2 a 6 anos MAIOS do que a população de referência (Clarke et al. 2012), e isto não pode ser ignorado. Se há modelos de esportistas que não devem ser seguidos, ótimo! Que isto seja objeto de discussão no processo de ensino-aprendizagem. Por outro lado, não há modelos de esportistas que DEVEM ser seguidos? Estes também precisam receber atenção…

Uma das partes que tenho a tendência a concordar é que, como disciplina, a EFE “também é um dos responsáveis pelo crescimento do bullying escolar”, em decorrência da exclusão dos menos habilidosos, por exemplo. Oras, está amplamente disseminado que pessoas diferentes tem habilidades e competências distintas e, neste sentido, nem todo mundo apresentará o mesmo desempenho para tarefas distintas, como música, matemática ou educação física. Uma possibilidade de aprofundamento sobre este assunto diz respeito às inteligências múltiplas. Tem um livro bem interessante de um grande colega, que pode ilustrar tal cenário tão complexo.

E se, como o autor diz, a EFE “acontece na cabeça”, ora pois, é perfeitamente se aprender esporte na escola… exatamente como tempo-espaço para “vivenciar, entender, sentir e aí sim escolher qual atividade cada um gosta mais para num período fora da aula”! Inclusive, a escola pode ser mola propulsora para diversos comportamentos fora dela… Os estudos de tracking estão aí para isto, tanto na atividade física não esportiva, quanto no esporte!

Também concordo que “Aula de educação física não é momento de lazer nem de extravasar como alguns sugerem”. Porém, eu gostaria de mais cautela com afirmações deste tipo… Afinal, e o tal ditado do Confúcio: “ESCOLHA UM TRABALHO QUE VOCÊ AME E NÃO TERÁ DE TRABALHAR UM ÚNICO DIA DE SUA VIDA”? O que mais quero, é que as crianças AMEM e se DIVIRTAM fazendo aulas de Educação Física. Mas não só EFE, também quero que elas gostem de fazer aulas e se divirtam estudando Matemática, Ciências, Português, Inglês, Estudos Sociais e etc. A reforma necessária não é só do ensino. Profissionais precisam ser reformados, especialmente os que estão distantes da temática e querem falar sobre ela.